Por Khamila Christine e Roberta Gomes -
Terminar qualquer curso de graduação deixa o estudante um pouco aflito só de pensar em um emprego, em conseguir aquilo que lhe interessa, enfim parece tudo uma incógnita. Com a profissão de jornalista essas inquietações não são diferentes. Victor Hirakuri, 22 anos, jornalista recém-formado na Universidade de Brasília, também passou por várias dúvidas, mas hoje comemora porque já conseguiu passar em dois concursos públicos e nos conta um pouco o que acha da sua profissão. Com vocês a visão de um foca.
| AD - Porque escolheu ser jornalista? Tinha aquela coisa de pretensamente não ter rotina, de querer falar com pessoas diferentes (apesar da minha timidez). Lembro de, na faculdade, volta e meia conversar com os colegas sobre aquele “glamour” do repórter de sempre ter uma “bomba” (a gente sempre lembrava da célebre frase “parem as máquinas”) ou de o jornalismo ser “quarto poder”. Eu não tinha nada disso, eu acho que entrei nisso por um desafio quase literário de escrever cotidianamente e tentar ser original – muito mais do que tentar ser uma espécie de “portador da verdade”. AD - O que você pretende na sua profissão, qual o seu principal objetivo como jornalista? Uma meta que tenho agora é valorizar o meu trabalho e, assim, valorizar a profissão. Jornalistas não são carinhas bonitas na televisão, nem políticos em potencial. Uma forma de conseguir essa valorização seria trabalhar eticamente, buscar evitar erros (ou seja, fazer o básico) e cobrar a mesma ação dos colegas. Outra meta é divulgar o Brasil que existe fora do eixo Rio-São Paulo e valorizar os aspectos regionais. Por que todo o Brasil tem de ver o cotidiano do Leblon na novela das oito? Outra coisa: todos nós sabemos que Brasília não se resume à Esplanada dos Ministérios e à Praça dos Três Poderes, mas é só essa a imagem que sai daqui, e, com base nisso, sempre tem alguém que faz a ligação direta “Brasília = corrupção”. Eu pretendo lutar para mudar isso, tentar diminuir essa estereotipização tão fácil, e aumentar a representação da diversidade cultural brasileira, principalmente na televisão. | | AD - O que você acha da profissão de jornalista hoje? Eu vejo muitos entraves para o profissional hoje. O principal deles é a precarização do trabalho. Tenho colegas contratados como pessoa jurídica recebendo o piso da categoria, mas sem muitos dos direitos trabalhistas. E ainda hoje o desafio de que os veículos de comunicação são uma das primeiras empresas a sofrer com uma crise, pois dependem de publicidade, que costuma ser uma das primeiras áreas a sofrer cortes de investimentos. E, depois, uma das últimas a se recuperar, se é que se recuperam totalmente. Ainda sobre a publicidade, quando se fala em televisão, se o jornal não tiver audiência, ou seja, se não atrai anunciantes, você deixa de ter trabalho. O que se viu nos últimos meses, com a demissão de Casoy e as mudanças de horários do Jornal do SBT, por exemplo. Apesar disso, não apenas problemas, são desafios, que devem ser estudados e superados.
|  | | AD - O que você acha que está faltando no mercado nessa área? Vou apontar duas coisas que faltam. Só não vou conseguir apontar causas. O que tenho visto às vezes é que falta ânimo para correr atrás das pautas, o que deixa as matérias pouco originais, e repetitivas. Falta, também, separar opinião de informação. Para alguns, determinado fato foi tão repulsivo, por exemplo, que não basta descreve-lo, é preciso dizer que foi realmente repulsivo. Isso não é necessário. Basta relatar o fato e deixar que o leitor diga se foi ou não. AD - Como você ver a questão da ética na profissão? Ética é essencial para o bom exercício de qualquer profissão, mas no jornalismo ela ganha um contorno especial: nós cobramos ética dos gestores públicos, dos governantes, dos empresários. E neste sentido, a ética no trabalho do jornalista deve ser fundamental para o trabalho do repórter: ninguém pode cobrar aquilo que não pratica. AD - Como você vê o caso da revelação de fontes? Sou contra a quebra do sigilo de fonte. A quebra do sigilo representa o cerceamento das ações do repórter. Mas o sigilo não se relaciona apenas com a liberdade de informação, mas com a confiança no jornalista, tanto dos que o lêem quanto das fontes. Mas precisamos nos lembrar de que a responsabilidade quando se divulgam informações obtidas “em off”, sob sigilo de fonte, é imensa. E o sigilo, pensando em termos éticos, não deve ser desculpa para divulgar notícias deturpadas ou que misturem opinião com informação. AD - E a imparcialidade para você é um mito?Como você a define? Se você já conseguiu formular alguma coisa sobre o assunto que você está tratando, você já deixou de ser imparcial. Vamos pensar em termos de Copa do Mundo. Colocar na manchete “Brasil perde”, revela certa parcialidade. Supondo que as duas equipes tenham jogado incrivelmente bem e o adversário do Brasil tenha feito dois lances de genialidade, foi o adversário que ganhou o jogo, não o Brasil que o perdeu. A gente só vê a quebra da imparcialidade quando nossa visão de mundo não está contemplada na matéria. A grande questão nem é mais a imparcialidade, mas a isenção. Só para constar, e voltando à questão da ética, se o veículo tem posicionamento político, digamos, ele deve deixar isso claro para os leitores, por meio de editoriais, por exemplo. É uma imparcialidade declarada, e não há nada de errado nisso, pelo contrário. Mas confundir opinião com informação, acusar com provas contestáveis e não permitir defesa e ainda se declarar “portador da verdade”, isso não considero aceitável. AD - Dicas de um foca para quem pretende se tornar um bom jornalista. Na minha visão, o jornalista vive da conversa, ou seja, da entrevista, e da palavra, do relato. Então ele deve ter uma formação cultural, tem de ler, conhecer. E, como o jornalista lida com a palavra, seja ela impressa ou falada, o jornalista tem de buscar um português impecável. Além disso, o repórter é um curioso por excelência, então ter interesse e pesquisar é fundamental. Muitos erros acontecem por falta de uma simples consulta ao dicionário. AD - Como está sendo ser um jornalista concursado? Nunca pensei em fazer comunicação institucional ou assessoria de imprensa, para ser franco. Mas hoje vejo nela um campo bastante interessante. AD - Pretende alçar outros vôos? Revista, telejornalismo? Claro, a gente não pode se acomodar com o que tem no momento. Quando resolvi ser jornalista, meu grande sonho era escrever para um jornal diário. Hoje é ser editor-chefe. Ainda há muito tempo para realizá-los. AD - Você acha que em meio a uma vasta modernização nos meios de comunicação, o jornal impresso perdeu seu lugar? Acha que ele pode acabar? O jornal impresso ainda não perdeu seu lugar totalmente, mas se ele não encontrar outro espaço, vai realmente acabar. A grande questão é que os jornais nasceram para dar as notícias, e nesse meio tempo, rádio, televisão, Internet vieram e tomaram esse lugar. Então não faz mais sentido você comprar um pedaço enorme de papel para saber as últimas. Se acontecer algo muito relevante às cinco da manhã, o jornal que recebo as sete não tem mais serventia. O jornal impresso, para sobreviver, vai ter de se reinventar, ser mais analítico e ousar nas reportagens. Leia outros textos de Khamila Christine e Roberta Gomes |
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